Ser psicóloga é um ato político

Por Thais Marina

Inspirada no post da @marinatavarespsi feito há alguns dias sobre a psicologia ser neutra ou política, me peguei pensando bastante no que me levou à decisão de fazer psicologia. Eu não sabia, mas nada mais político que essa escolha.

Por que a escolha pela psicologia é política?

Frustrada com os caminhos que minha primeira formação me levou, com experiências em ambientes corporativos onde a lógica hierárquica e meritocrática reina, em que a cultura do trabalho compulsivo e o autoritarismo são prestigiados, percebi que o lucro e o poder muitas vezes contam mais do que a ética. Lucro de poucos e sangue de muitos. Esse mundo não fazia sentido para mim.

Questões de gênero, classe e transformação

Mais tarde entendi que muitas das questões que me incomodavam se relacionavam a gênero e classe, tão presentes hoje. Questionar o sistema selvagem das corporações e apostar em uma transformação sustentada na ética da escuta é, sem dúvida, um ato político. Na clínica, seguimos justamente o caminho oposto ao do discurso capitalista que produz sujeitos obedientes.

Psicologia, ética e poder

Em “Maneiras de transformar mundos”, Vladimir Safatle fala sobre a destituição das relações de poder como peça fundamental na cura do sofrimento psíquico. Assim, psicólogos que ainda trabalham no formato de detenção do saber sobre o outro contribuem para uma lógica hierárquica que perpetua sofrimentos.

“Mundos não são transformados ocupando os lugares dos antigos senhores, mas destruindo os próprios lugares, decompondo a gramática que lhes sustenta. Matar senhores nunca foi a ação mais difícil. Mais difícil sempre foi se recusar a ocupar seus lugares, recusar a agir como até agora se agiu.”
— Vladimir Safatle

Psicologia como ciência crítica e social

Embora Safatle seja do campo da psicanálise, acredito que a psicologia deve ser pautada pelo compromisso social: uma ciência crítica do seu tempo e, portanto, também política.