Psicoterapia não é protocolo: por que o processo vai além da agenda semanal

Calma! Dizer que psicoterapia não é — veja bem — “protocolo” de bem-estar, não significa que seus efeitos terapêuticos, advindos de uma catarse e do alívio de sintomas, não sejam considerados durante o processo. O que significa “protocolo” na psicoterapia? “Protocolo”, em seu significado mais abrangente, é um conjunto de regras, normas e critérios a serem cumpridos no detrimento de determinada atividade. No entanto, reduzir a psicoterapia a um protocolo é esvaziar sua essência transformadora. Psicoterapia não é apenas presença física “Cumprir” a psicoterapia como uma regra semanal, sem a implicação que ela nos convoca, não é fazer psicoterapia ou análise. Estar durante 50 minutos no setting, seja ele físico ou online, não garante que um processo terapêutico esteja acontecendo. A implicação do sujeito no processo A psicoterapia exige mais do que marcar presença: ela demanda envolvimento, entrega e abertura para a transformação. Sem essa implicação, ela corre o risco de se tornar mais uma tarefa burocrática na agenda. Qual é a direção do tratamento? Se a psicoterapia passa a ser vivida como mera obrigação, qual direção pode o tratamento tomar? É nesse ponto que a reflexão se torna necessária. Fica a reflexão!

Ser psicóloga é um ato político

Inspirada no post da @marinatavarespsi feito há alguns dias sobre a psicologia ser neutra ou política, me peguei pensando bastante no que me levou à decisão de fazer psicologia. Eu não sabia, mas nada mais político que essa escolha. Por que a escolha pela psicologia é política? Frustrada com os caminhos que minha primeira formação me levou, com experiências em ambientes corporativos onde a lógica hierárquica e meritocrática reina, em que a cultura do trabalho compulsivo e o autoritarismo são prestigiados, percebi que o lucro e o poder muitas vezes contam mais do que a ética. Lucro de poucos e sangue de muitos. Esse mundo não fazia sentido para mim. Questões de gênero, classe e transformação Mais tarde entendi que muitas das questões que me incomodavam se relacionavam a gênero e classe, tão presentes hoje. Questionar o sistema selvagem das corporações e apostar em uma transformação sustentada na ética da escuta é, sem dúvida, um ato político. Na clínica, seguimos justamente o caminho oposto ao do discurso capitalista que produz sujeitos obedientes. Psicologia, ética e poder Em “Maneiras de transformar mundos”, Vladimir Safatle fala sobre a destituição das relações de poder como peça fundamental na cura do sofrimento psíquico. Assim, psicólogos que ainda trabalham no formato de detenção do saber sobre o outro contribuem para uma lógica hierárquica que perpetua sofrimentos. “Mundos não são transformados ocupando os lugares dos antigos senhores, mas destruindo os próprios lugares, decompondo a gramática que lhes sustenta. Matar senhores nunca foi a ação mais difícil. Mais difícil sempre foi se recusar a ocupar seus lugares, recusar a agir como até agora se agiu.”— Vladimir Safatle Psicologia como ciência crítica e social Embora Safatle seja do campo da psicanálise, acredito que a psicologia deve ser pautada pelo compromisso social: uma ciência crítica do seu tempo e, portanto, também política.